Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Junho 17 2010

( viagem no surrealismo)

 

Há uma janela que não respira

Amorfa, sem vida

Que olha da parede para mim.

Não resguarda gente do frio

Não se abre para o jardim

Meio esgotado e selvagem.

A magia daquela janela

É não querer ser ela.

Sim, uma janela mostra o interior

Escancara-se para o exterior

Geme nas ferragens

E faz-se carcomida nas madeiras

Mas tenta representar pessoas, sensações, luz.

Aquela janela meus calafrios produz

Para além de imaginações perversas

Um verdadeiro estertor

Uma agonia sem arquitectura nem brios

Sem reposteiros ou cortinas de renda

Onde o pó cresce em camadas

E os gatos não se aproximam

Mostrando seus olhos celestes

E seus veludos de pelo.

Aquela janela suscita-me o nada

O vazio

Um torpor frio

De um sem abrigo

E há ali praga, abismo, inimigo

Que lhe põe mau olhado

Que lhe tirou o bafo, as vozes, os movimentos.

Não mostra mulher ou homem no seu interior

Nem crianças, nem velhos

Nem canário empoleirado

Nem quadros pendurados

Ou um pano correndo meigo pelos vidros

A limpá-los da sujidade acumulada

Mostrando o esqueleto que a trás emoldurada

E perra talvez, quem sabe.

Não mostra mulher de pijama ou nua

Nem homem de tronco aberto ou camisola interior

Ou idosa de carrapito fazendo crochet

Nem o saltar na frigideira de uma omeleta

Que seja, para acalentar o estômago enraivecido…

E eu pergunto-me desiludido

O que faz ali aquela janela

De olhos tristes… corpo abandonado?

 

Numa parede esquadrinhada

Sabe-se lá quando e por quem

Ela consome-se no tempo

Empena-se nas intempéries

Suportando ventos agrestes

Na companhia de uma acácia, dois ciprestes

E tendo ainda a admirá-la um banco de jardim

Onde os cães mijam quando a lua vem no fim

De cada tarde morna que a bafeja.

Não há vida que se veja

Casa adentro e a porta tem ferros a trancá-la

Mostrando que a casa se cala

Desde há muito

Sem palpitações

Como que num estado de coma

Alheado a tudo e a todos

Em melancolias tais

Indiferente aos vendavais.

Cada vez que ali paro admiro a sua postura

A envelhecer de madura

Madeiras rangendo de tristeza.

 

A última vez, com os olhos e a alma

Ganhei forças, perdi a calma

Quando a vi

E arranquei-a para que não se tornasse

Mais um escombro, um esqueleto

E em moldes de cântico de velório

Tentei oferecer-lhe frescura

Pintei-a, fiz uma moldura na sua moldura

Pendurei-a no escritório.

 

08.09.2008

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

publicado por cantaresdoespirito às 22:03

Este blogue está aberto aos co-autores e Poetas Amigos de Maria Ivone Vairinho
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